 | Sejam Bem Vindos | Aug 20, 2004 |
Anderson Santos, nascido em 1977, num janeiro do Rio de Janeiro, foi criado seguro no Porto Alegre do Rio Grande do Sul. Leitor desde novo. Escrevinhador desde 1999. No coração e no canudo, Matemático. Dos vôos livres ao seio de Gaia que escreveu, alguns ganharam asas. Selecionado no Concurso "Poemas no Ônibus" da Secretaria de Cultura de Porto Alegre nos anos de 2000, 2002 e 2007; 3º lugar no Concurso Internacional de Poesia "Cantinho do Poeta II"; selecionado no concurso nacional "Mar e Amor" do site Mar de Poesia, selecionado no Prêmio literário Livraria Asabeça em 2002 e 2006, convidado a fazer parte de coletâneas de amigos (Cantinho do Poeta) e de quem se tornou amigo ("Coleção Verso e Prosa Volume 1" - Sociedade de Escritores de Blumenau). Seu maior orgulho é o poema visual "Circular", publicado na Edição 72 da Revista Cult. Os último filho a ganhar asas doi o poema "Asas Tristes", selecionado no 7º Concurso de poesia da Universidade de São João Del Rey, o poema Giz, selecionado no "Prêmio Literário Canteiros Cultural 2007", o poema "Transmudação" selecionado no "I Concurso Fatec Mococa de Poesia" e o conto "Dádiva Amaldiçoada", publicado na 12ª coletânea de Contos fantásticos da Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Escreve por que transpira, não versos, mas trabalho.
 IMORTAL - ANDERSON SANTOS
RELEASE
Já está nas livrarias Cultura, Saraiva e Curitiba de todo o país o livro IMORTAL, do escritor gaúcho Anderson Santos. Esse é o livro de estréia do autor que é poeta, contista e professor de matemática com um gosto pelo fantástico e pelo terror. O livro tem 192 páginas, é editado pela Editora 21 de São Paulo e conta a história de um clã de caçadores de vampiros do Rio Grande do Sul. O livro Imortal é prefaciado pelo jornalista e professor Antônio Hohlfeldt, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre 2008, e tem preço sugerido de R$25,00.
Sinopse:
Uma família de antiquários há gerações, que esconde sob móveis manchas de ódio, de vingança e desespero. Hector, o único herdeiro vivo do sangue Szadkoski, procura o vampiro que matou sua mãe, último de um clã que o próprio Hector destruiu. E surpresas estarão no caminho que ele trilhará nas ruas de Porto Alegre e da pequena São Sebastião do Caí, ao lado de Dayanna, sua bela e corajosa esposa, uma Szadkoski por opção. Surpresas que mostrarão o quanto o sentimento de vingança pode nos transformar em uma versão distorcida daquilo que odiamos e tememos.
MATÉRIA NA ZERO HORA LINK: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2748606.xml&template=3898.dwt&edition=13722§ion=999 ADQUIRA! O livro está a venda na Cultura, na Saraiva, nas Curitiba (em cada cidade tem um nome, e aqui chama livraria Porto), e nas americanas.com
 | NANO | Oct 19, '08 8:58 PM for everyone |
Nano
"Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte fugirá deles" Apocalipse 9:6 1. - Eu vou me deitar aqui e esperar – disse Perpétua para o grupo de mulheres desesperadas que corriam, gritavam e choravam tentando se ferir, sem sucesso. Ali, deitada, ela começou a repassar os fatos de sua vida, uma vida longa, insuportavelmente longa. Perpétua lembrava de como tudo havia começado, 115 anos, 7 meses e 8 dias antes. Este era um dos efeitos colaterais da coisa. Não se podia esquecer nada. Era como se seu cérebro fosse um daqueles supercomputadores criados na segunda década do século XXI, que armazenava dados em um diamante. Sempre havia espaço para mais dados. Infelizmente alguns dados ficavam sem explicação. Americanos, franceses, ingleses, chineses, japoneses, seja lá o que for, ninguém soube quem criou ou liberou o vírus, apesar das acusações mútuas e negações várias. Vírus, antivírus, nanovírus, isso também era uma incógnita naqueles dias, pelo menos para Perpétua. Mas ela lembrava do que viu e ouviu, do que sentiu e viu sentirem. O vírus ficou conhecido como Nano, de nanotecnologia, de 10-9, ou de bilhonésimo como algumas pessoas costumavam tentar explicar. Pega um milímetro, divide em um milhão de partes iguais e está lá o tamanho do bicho costumava dizer o pai de Perpétua. Tu pisas nele e ele aproveita para entrar na tua pele pelos poros. O Nano se espalhou mais rápido do que qualquer cientista pudesse prever, e infectou a população mundial inteira sem que qualquer medida fosse quiçá pensada, quem dirá tomada. Pessoas do mundo inteiro ficaram doentes, a beira da morte, algumas com dezenas de doenças ao mesmo tempo. O sofrimento pela dor alheia era outra doença que afetava a todos. Hospitais não deram conta de atender as populações por falta de espaço, por falta de recursos, mas principalmente por falta de profissionais. Não importava qual fantasia infantil as pessoas pudessem ter a ponto de pensar que não, mas médicos e enfermeiros também ficavam doentes, e ficaram, como todo mundo. Depois de um tempo um cientista brasileiro disse em rede nacional que parecia que o Nano reprogramava toda a história gravada no DNA, e todas as debilidades que estivessem destinadas a surgir vinham a tona de uma só vez. Um cientista falando de destino. E então, assim que a instalação do nano estivesse completa, o hospedeiro ficaria curado de – e imune a – todas as doenças as quais pudesse ser acometido. Assim, em poucos dias, todas as pessoas doentes se convalesceram, melhoraram, ficaram curadas, aleluia Nano. Nano havia se tornado o novo Deus. A cura absoluta, a vida eterna, amém. 2. E por dias, semanas, meses e até alguns anos, pessoas correram até as igrejas para agradecer a Deus por ter-lhes enviado o salvador, dessa vez para todos, aleluia, amém. 3. - Eu me lembro da cada palavra do livro de Jó – disse Perpétua para as mulheres que se dispuseram a ouvi-la. – No capítulo 3, versículos 20 a 22, Jó pergunta "Por que se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ânimo? Que esperam a morte, e ela não vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros ocultos; que de alegria saltam, e exultam, achando a sepultura?", e eu me pergunto o quão miserável estamos sendo todos nós com este desejo pela morte. Falávamos todos em não envelhecer, em não adoecer, em vida saudável, beleza do corpo. Vivíamos o culto ao belo, ao jovem, ao saudável. E agora estamos aqui. Perpétua mais uma vez calou-se. Precisava estudar suas memórias para tentar entender o que estava acontecendo consigo. Deitada, deixou-se levar novamente pelos perfumes do passado, pela época de ouro. Quando todos descobriram que não poderiam mais ficar doentes, a imprudência subjugou a razão, o delírio subjugou a imprudência, e o caos subjugou o delírio. Pessoas esqueceram-se das noções mais básicas de asseamento, de cuidado de si. Era a nova era de Aquário, Woodstock novamente. Paz, amor, liberdade, sexo e drogas. Sexo e drogas. Sexo e drogas. Menos para os governos. Sem doentes, os países ficaram com centenas, milhares de desempregados. Os hospitais tornaram-se obsoletos, verbas para a saúde foram remanejadas para outras urgências como segurança pública, agricultura e pecuária. O mercado de ações e as bolsas tiveram quedas astronômicas e grandes empresas farmacêuticas faliram. Preservativos e anticoncepcionais, sabonetes, cremes e xampus não conseguiam mais sustentar o mercado, e quando a população descobriu que não mais envelhecia, a exceção dos jovens que cresciam até os 21 anos para passar a sustentar aquela mesma aparência para todo o sempre (amém), as últimas empresas farmacêuticas fecharam. Os poucos centros médicos que mantinham funcionamento começaram a registrar um número cada vez menor de atendimentos. Apesar de toda a imprudência e de todo o caos, não havia mais ferimentos a bala, acidentes na estrada, tentativas de suicídio. Dois meses após a cura milagrosa de todos os doentes foi registrada a última morte natural no mundo. Cinco meses depois, as estatísticas procuravam por qualquer tipo de mortes, em vão. Em um ano, as taxas de natalidade começavam a se tornar um problema difícil de manejar. Dois anos depois, grandes governos efetuaram a recontratação de cientistas e médicos para estudar um meio de eliminar o Nano. Em cinco anos, pequenos países já estavam sem energia, sem água potável, sem espaço físico para uma vida digna. A migração para países com promessa de condições de sustentabilidade se tornaram inevitáveis. Países como o Brasil fecharam as fronteiras, já que a água havia se tornado mais cara do que o petróleo, e muitos de nós esperávamos o dia em que os americanos nos atacariam com suas bombas e mísseis e exércitos super treinados. Não aconteceu. Havia algo no Nano que não permitia que acontecesse. Descobrimos isso da pior maneira possível. 4. Cinco anos. Cinco anos e nenhum acidente acontecia no trânsito, apesar de toda a imprudência. Nenhuma bala era disparada contra outro ser humano. Era como se uma consciência inconsciente, um titereiro sob a máscara da liberdade e da vida eterna, segurasse o dedo que puxaria qualquer gatilho. Pequenos acidentes domésticos curavam cada vez mais rápido, sem a necessidade de qualquer medicamento. Queimaduras, choques e cortes leves cicatrizavam em segundos, sem deixar marcas. Mas o acaso, como para testar o destino, explodiu o sistema de gás de uma casa em São Paulo fazendo em pedaços o corpo de uma dona de casa comum, e o que talvez viesse a ser a primeira morte do mundo em muitos anos, acabou se tornando a primeira visão do horror que o Nano havia trazido às nossas vidas. Os bombeiros, a polícia e os canais de televisão chegaram ao local do acidente ao mesmo tempo. Ouviram os gritos da mulher que, conforme informações dos vizinhos, estava sozinha na casa no momento da explosão. Não havia meios de ela ter sobrevivido àquilo. Encontraram primeiro um de seus braços, o direito, retorcendo-se no chão como a cauda de uma lagartixa. Depois a parte inferior de seu corpo dividida na altura da cintura, tentando levantar-se e provavelmente voltar ao que estava fazendo antes de ser extirpada de sua dona. Todas as partes estavam incineradas ou queimando, e o cheiro da carne era insuportável. Quem encontrou a cabeça, unida aos ombros e seios e ao braço esquerdo, queimada e gritando por socorro, foi um cinegrafista que transmitia tudo ao vivo, via satélite, para todos os países do mundo que ainda tinham energia suficiente para ligar seus aparelhos eletrônicos. Não éramos senhores de mais nada. Éramos imortais, da pior maneira possível. O Nano havia assumido o controle. 5. Um caso semelhante foi noticiado na China após um terremoto que destruiu as construções de diversas cidades, deixando soterradas milhares de pessoas que sobreviveram durante semanas sem água, sem alimentação, sem perder o viço. Algumas sem diversas partes do corpo também. Como partes de uma consciência coletiva, pessoas do mundo inteiro deixaram de usar e até mesmo captar e refinar petróleo, saíram de construções optando pelo ar livre em regiões onde o risco de terremotos era constante, estas entre outras ações de preservação não pensadas, apenas executadas. Mas foi a cabeça de Angelita Carvalho Dias, a dona de casa que explodiu, falante e viva, que ficou conhecida como a Cabeça de Orfeu, condenada a viver eternamente como um busto bizarro a ser estudado, observado e ouvido, sofrendo a saudade fantasma do corpo que estava destinada a não ter. 6. Os governos, iniciaram ações com medidas desesperadas. Enquanto o Nano impedia as pessoas de se machucar, e até que o vírus compreendesse totalmente o que era prejudicial a ele, os governos puderam implantaram um sistema de esterilização em massa. Com a população mundial crescendo exponencialmente, com os espaços habitáveis se tornando escassos, a agricultura se tornando insuficiente, bem como a pecuária e a industrialização em geral, e a economia mundial falida, o único meio de tentar estabilizar o problema era zerar a taxa de natalidade. Os filhos mais velhos da era Nano estavam agora com sete anos e, para espanto de seus pais, eram tão padronizados que mal podiam ser diferenciados. Altura, peso, condições de saúde, inteligência. Até os primeiros passos foram dados com a mesma idade. Nenhuma deficiência era encontrada, nenhuma síndrome. Talvez todas tivessem o mesmo tipo sangüíneo, mas quem se importaria em descobrir? Com saúde impecável, não se machucavam nunca. Era como se nascessem com um equilíbrio inabalável, com um instinto de sobrevivência impecável, sobreviventes. Para os governos, a esterilização foi uma ação arriscada. Apesar de não mais terem gastos com saúde, com segurança, e, no caso dos filhos da era Nano, com educação – as crianças desenvolviam habilidades como se estivessem programadas para executar programas de instalação de tempos em tempos – os governos já não mais conseguiam recolher tantos impostos, entrando cada vez mais em déficit do qual imaginavam que talvez nunca fossem conseguir sair. Ainda assim, o governo brasileiro agiu. Falo do governo brasileiro pois, àquela altura, não tínhamos mais notícias do resto do mundo. Recebíamos energia elétrica e sinais de rádio apenas durante uma hora por dia, das 19h às 20h, quando a Voz do Brasil era transmitida para que pudéssemos saber o que fazer, como agir. O programa de esterilização foi rápido e praticamente indolor. Homens submeteram-se a vasectomia, mulheres a laqueadura das trompas. Se quiséssemos arranjar meios de viver com dignidade sobre o espaço territorial que nos era devido, precisávamos estagnar o crescimento que o Nano havia gerado. Todas as cirurgias eram reversíveis, diziam os porta-vozes do governo, e se um dia a cura para o Nano fosse encontrada e pudéssemos finalmente morrer, os mais jovens poderiam voltar atrás, e gerar herdeiros para a terra. Se os cálculos dos estudiosos de Brasília estivessem certos, a população mundial já teria atingido 18 bilhões de habitantes. E, se não agíssemos logo, o Nano não permitiria que seu legado fosse interrompido. 7. O Nano não permitiu. Mulheres continuaram a engravidar, crianças continuaram a nascer. Grupos de resistência começaram a surgir aqui e ali, tentando suicídios de diversas maneiras. Mas ninguém conseguia saltar de prédios, ninguém conseguia empurrar seus amigos de quaisquer que fossem as alturas, e em pouco tempo, ninguém mais conseguia subir mais do que alguns poucos degraus. Algo no cérebro das pessoas as impedia. Ninguém conseguia se afogar, o corpo girava e boiava. Conta-se que um grupo conseguiu enganar o Nano e amarrar pesos nas pernas, saltar em alto mar e afundar. Dizem que foram encontrados alguns meses depois na beira da praia. Seus corpos intactos e vivos não precisavam mais de oxigênio. Os extremistas negaram-se a comer e beber. Isso também não foi problema para o Nano. É exatamente por isso que hoje, mais de 100 anos depois, nenhum dos filhos do Nano precisa respirar, comer, beber, urinar ou defecar. Eles apenas habitam e vivem para ser hospedeiros de um vírus que quer viver. São automóveis, modelos sempre novos para serem dirigidos pelo Nano. Também são veículos anfíbios, pois quando a ocupação dos continentes ficou completa, os filhos do Nano começaram a se dirigir para o oceano. Diversas colônias hoje vivem sob as águas, Novas Atlantis onde Nano é o único Deus, aleluia. 8. Aqueles que nasceram antes da liberação do Nano voltavam cada vez menos às igrejas. Lá, a única pergunta era "Por quê, Deus, nos enviaste praga tão cruel?". E Deus, aparentemente, nunca soube responder. Depois de alguns anos, as igrejas deixaram de existir, e a fé se tornou ornamento, um tipo de flor que brotava apenas em solidão. 9. Os cientistas, na época da esterilização, acreditaram que o Nano, tendo percebido a estratagema da ciência, havia recuperado as trompas e os canais deferentes seccionados. Se era capaz de curar doenças que a ciência mal foi capaz de estudar, recuperar pequenas secções devia ser um quebra cabeça de apenas duas peças para ele. Com este último fracasso, demorou pouco tempo para que os governos brasileiros se extinguissem, e dez anos após o Nano, estava instaurada a anarquia, ou melhor, a Nanorquia, onde apesar de nosso livre arbítrio, a única vontade que prevalecia era a do Nano. Ainda éramos capazes de desejar a morte, mas não éramos mais capazes de alcançá-la. 10. As fronteiras do mundo acabaram. Com a reprogramação de nossos corpos que não mais necessitavam de alimentos, ar ou água, metrópoles ruíram, e o planeta tratou de reflorescer. Plantas cresciam por todo lado, animais viviam livres, deslocavam-se livres, sem nem perceber nossa presença. Cinqüenta anos após a infecção pelo Nano, o mundo também estava curado. Não que este tivesse sido infectado. A doença do mundo éramos nós, a saqueá-lo, perfurá-lo, sujá-lo. Com o Nano, o mundo não nos via mais como ameaça. Animais não nos viam mais como ameaça. Não éramos atacados, mordidos, picados. Nos tornamos pedras. Se não nos mexêssemos rápido, podíamos ser cobertos por limo ou líquen. O Nano, que não parava de se multiplicar, precisava sempre de mais humanos, mas esqueceu-se daqueles que nasceram antes dele quando o assunto era reprodução. Era mais fácil induzir os filhos, e agora netos e bisnetos do Nano a reproduzir-se. Nós, da resistência, desejávamos demais a morte para gerar vida. Se fosse perguntado a qualquer pessoa nascida antes do Nano, um dia antes da chegada do vírus, se ela gostaria de viver para sempre jovem, ela venderia a alma para alcançar tal dádiva. Hoje, muitos venderia a alma para alcançar o fim. Resistência. Sete bilhões de pessoas que conheceram uma vida que terminava em morte. Somos 7.000.000.000 de habitantes com memória de como era chegar ao fim, como era sofrer a perda de um ente querido. Isso mesmo, um sete com nove zeros. Muitos de nós nem sabe mais por onde andam seus entes queridos. Muitos de nós nem sabe mais por onde anda. 11. - Eu desisti do espelho há muito tempo! – exclamou Perpétua para a caverna onde dezenas de mulheres esperavam que ela se manifestasse. – E sei que várias de vocês fizeram o mesmo. Vejo pelos cabelos sujos e engrenhados, pelo aspecto de seus rostos sujos. Mas tenho uma péssima notícia. Mesmo com os cabelos e faces imundos, mesmo com os trapos a lhes cobrir o corpo, vocês continuam parecendo lindas mulheres de trinta anos, com os corpos malhados como se ontem tivesse sido seu último dia na academia. - Tanto suor, tanto esforço por uma beleza que eu não suporto mais olhar. Não suporto a idéia de olhar durante 115 anos para o mesmo rosto, para o mesmo corpo. Eu daria tudo para envelhecer. Para ver a mulher que eu teria me tornado. Para descobrir quem estaria ao meu lado no final da minha vida. Para acordar em outro plano. Eu, que nunca acreditei em vida após a morte, agora não consigo acreditar em vida após a vida. Perpétua percebeu que várias das mulheres começaram a derramar lágrimas silenciosas, marcas de quem há muito se acostumou a sofrer em silêncio. Fechou os olhos e voltou para suas lembranças. 12. O tempo passou. Muitos de nós, que havíamos conhecido a tecnologia, a energia elétrica, o mundo moderno, e que agora vivíamos uma nova idade antiga em pleno século XXII, ainda temos em nossa memória a habilidade para construir, para gerar, para crescer. O Nano não nos permite. Com toda a força que lhe foi dada, com toda a consciência que lhe foi conferida, o vírus foi capaz de controlar a maioria ou a totalidade de nossos impulsos, mas não foi capaz de apagar nossas lembranças ou nossos desejos. Aqueles 3% de massa encefálica que usávamos segue intacto. Ou talvez seja apenas nossa alma. Idade antiga é lirismo. Voltamos mesmo à era das cavernas. Cinqüenta anos após a chegada do Nano, e depois de três gerações de filhos do Nano, já não éramos capazes de diferenciar os novos homens entre si, as novas mulheres entre si. Os bisnetos do Nano tinham todos a mesma aparência, altura e peso. A mesma estrutura, a mesma voz. E ainda assim eram capazes de se distinguir entre si. Babel foi desfeita. Aqueles que conseguiram migrar para outros lugares descobriram que sua fala estava alterada, e que todos, no mundo inteiro, eram capazes de se comunicar através de uma nova língua, que não saía de suas bocas, mas de suas ondas cerebrais. Algo lógico já que não mais respiramos, e a voz necessita do ar para se propagar. Apenas pensamos em nossas línguas mãe. E com o tempo, nos acostumamos a não ser donos de nossos atos. Apenas de nossas esperanças. 13. Foi há exatos doze anos que um novo horizonte começou a se apresentar. Depois de mais de 100 anos de reinado coletivo do Nano, alguma mutação aconteceu. Talvez o planeta esteja tentando se proteger, ou apenas a multiplicação do vírus esteja começando a gerar novos espécimes mais fracos, ou mais fortes. Há doze anos, como na Revolução dos Bichos de Orwell, alguns porcos resolveram andar sobre duas patas. Um grupo de homens e mulheres da nova geração de descendentes do Nano aparentemente decidiu que eles deveriam tomar posse da terra. Não coexistir com o planeta e com a natureza, mas dominá-los. Explorar o que há de natural e os conhecimentos dos habitantes antigos, e desenvolver meios de viver em lugares mais altos, com mais conforto, e quem sabe até ocupar outros planetas. Outro grupo, mais extremista, decidiu que apenas os Nano mais fortes deveriam ser deixados vivos, e a esperança de experimentar o fim reacendeu em quase todos nós, que um dia fomos resistência. Saímos todos a procura desses extremistas, e foi assim que chegamos até aqui, 115 anos, 7 meses e 8 dias depois da liberação dos primeiros vírus. 14. Eles se autodenominaram Os Messias. Ofereceram-nos a oportunidade de termos o fim que desejássemos, ainda que não entendessem o porquê de não querermos viver. Era como se não entendessem nossa esperança de encontrar um paraíso, um Deus que nos explicasse o motivo de tanto sofrimento, um alento. Então separaram os homens das mulheres, levaram-nos para lados diversos do planeta, e, com promessas que nos fizeram amá-los, nos amaram. Apenas mais uma artimanha. Os Messias precisam de nós. Acreditam que apenas os cruzamentos entre suas espécies evoluídas e nossos corpos basicamente humanos eles podem criar aqueles que irão liderar o levante contra os Nano que eles chamam de obsoletos. Nos transformaram em reprodutores. Pais de uma geração que quem sabe um dia será capaz de combater os nossos opressores iniciais. Com algum tipo de ciência, misticismo ou bruxaria que só cabe aos Messias, reativaram sistemas de nossos corpos há muito mortos. Quem sabe esse pouco de energia que nos foi dada seja tomada quando dermos à luz aos monstros que geraremos. Quanto aos homens, não sei que fim levaram. Rogo para que, como viúvas negras, as Messias tenham dado a eles o descanso final após cumprirem suas tarefas. 15. - Eu vou me deitar aqui e esperar – disse Perpétua para o grupo de mulheres que se deitava e acomodava ao lado dela. – Nosso Messias foi embora, e está claro que somos apenas reprodutoras agora, sem nenhuma utilidade a não ser dar a luz ao que quer que venha a nascer. Fomos enganadas. - O certo é que se nos deitarmos e esperarmos por nove meses, talvez até menos, isso não fará diferença alguma. Essas crianças irão nascer sem a nossa ajuda. Durante esse tempo o que nos cabe é rezar, para que, ao nascer, nossa fé seja recompensada, e nossa energia se esvazie junto com nossos úteros. - Nove meses são segundos para quem tem 145 anos. Eu vou me deitar aqui e esperar, e isso é tudo, tudo o que eu posso fazer.
Anderson Santos
 MARTINI “Bêbado de me sentir vagueio e ando certo” Bernardo Soares (Fernando Pessoa) Detesto vermute doce. Bebida doce de mulher frígida. Pobre acha que vermute doce é martini, e que martini com cereja é bebida fina, de gente rica. Daí coloca duas cerejas... e a calda! Bebida doce de gente sem o menor senso de refinamento. Também não suporto essas cortinas chocolate e estas almofadas café sobre o sofá creme. Aliás, desde quando café virou cor? E chocolate? É como a parede cereja contra o móvel de madeira de demolição na sala de jantar. Eu nunca precisei de duas salas, tampouco de uma parede cereja! E desde quando cereja é cor? Bebo este martini pois é a última garrafa que resta no bar. Na verdade não é a última. Há alguns bons vinhos, alguns bons whiskys, alguns até mesmo excelentes à disposição. É a última coisa tua que resta no bar. Na parede cereja escrevi te odeio um sem número de vezes com teu batom marrom. Não marrom, nem batom. Lipstick CHOCOLAT #515. Chocolate. E desde quando chocolate é cor? Sirvo outro copo de martini. Não taça. Copo. Com gelo. Apanho uma de tuas lingeries para limpar da parede pistache teu creme caro que passas em torno dos olhos. Pistache! Pistache! Nem vou comentar. Bebo o doce asqueroso de tua bebida favorita, e ele me desce pela garganta como lamúrias e reclamações. Pesado, pesado, pesado, cada gole é pesado, pesado, pesado e sirvo-me outro copo. Preciso de um banho... um banho demorado na banheira da suíte com pastilhas berinjela, outra dessas cores de revista de decoração. Deixei que transformasses minha casa inteira numa obra de mau gosto de decoradores pós-mornos, que de pós-modernos não têm nada. Pós-mornos mesmo. Minha casa é fria como as páginas de uma revista. Deixo as roupas jogadas pelo chão do banheiro, e não no cesto. Terei prazer em largar a toalha molhada na cama king size com dossel. Por enquanto urino na água que escoa girando e girando e girando pelo ralo da banheira. Ahhh... tu estarias arrancando os cabelos. Eu bebo teu martini. Bebida doce de merda que não me deixa ficar bêbado. Caminho pelado vestindo apenas um de teus sapados de grife 36 com meu pé 39. Destruo o salto e a fôrma a cada passada desequilibrada não pelo álcool, mas pela falta de jeito. Nunca tive aptidão para ser mulher. Para ser sensível. Para ser compreensivo. Para ser companheiro. Por isso não consigo andar de salto, o que é bom, pois posso destruir mais alguma coisa que eu amas. Coisa que tu amas. Que tu amas. Que tu amas. Acendo um cigarro e fumo no quarto. Deito as cinzas no teu porta-jóias da adolescência enquanto a bailarina gira, gira, gira, como se bebesse martini demais. Do teu conjunto de malas que vejo pela porta do roupeiro aberta percebo que falta a maior. Espero que tenhas levado tudo o que precisavas. O resto eu vou queimar na churrasqueira elétrica que me deste por não suportar a fumaça feita pelo carvão. Louca, neurótica, controladora. As jóias eu vou vender num site de leilões qualquer da internet pelos centavos que tu vales. Por que não me traíste? Por que não fugiste com outro? Qual a razão de teres apenas me deixado e ido para a casa da tua mãe? Por que não permitiste que eu jogasse toda a culpa em ti? Por quê? Sirvo-me martini em um copo novo. O quebrado recolho amanhã de baixo do quadro com nossa foto que derrubei no arremesso. Gelo. Uma cereja. No aparelho de som toca Jay Vaquer e entreouço frases como tão cego que ficava impossível ir além do raso e penso em brincar com CDs e tuas lixas e esmaltes. Com o martini bebo em goles tuas partes, os pedaços de ti que não mais me pertencem. E hoje o que me embriaga é o que ontem me apaixonou. Ébrio... ébrio... mais uma vez ébrio com o gosto doce da tua boca de vermute doce com cereja pobre fina gente gosto refinado. Bêbado de me perder vagueio e ando em círculos. Destruir o que amas é meu suicídio, meu castigo, minha ressaca. Não sabia o que esperar e esperei pelo pior canta Jay Vaquer e o pior sou eu, mas ninguém espera por mim. E eu espero, e cada gole é esperança, e eu espero, espero, espero, respiro, espero, espero, espero, sirvo, com gelo, e espero, espero, espero, pelo melhor de mim. Enquanto afogo com vinagre tuas violetas. Anderson Santos
O fio que liga a vida ao corpo. deitar o corpo ao chão unir à alma o espírito rasteja e lambe as sombras e não há sombras sobras ao fogo a língua é fogo tatear o piso frio buscar as frestas lugares pra aparar tuas arestas deitar o corpo ao chão purgar a mácula da língua, o fogo cospe o deletério se o fio que liga a vida ao corpo é morte unir o corpo à alma é adultério Anderson Santos
 Atropelaram a menina de vestido amarelo. Quem a via sobre a poça de sangue passava reto.
No rápido mundo moderno ao pensar no vermelho com amarelo desejava fast food.
Ia comer um super qualquer lanche feliz.
Anderson Santos
Re-atualizando meu MuKiFo, inicio com o Conto "Dádiva Amaldiçoada" que introduz Personagens do livro "Imortal", escrito e finalizado em busca de editora. Este conto foi publicado pela Câmara Brasileira do Livro, em formato impresso e virtual, e encontra-se, também, na página da Câmara, no link http://www.camarabrasileira.com/acol12-010.htm Espero que gostem da leitura. Na dfoto, imagem do parque da redenção, em Porto Alegre. Abraços Anderson *-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-  Dádiva amaldiçoada I. Para um caçador de vampiros, toda hora é meia-noite – pensou Patrícia enquanto esperava, em tocaia, o alvo que perseguia há três semanas. Patrícia era uma Szadkoski. Não recebera a missão da família por sangue, mas por matrimônio quando desposada por Ryan anos antes. Ryan, descuidado e impulsivo. Ryan que fizera dela esposa, mãe, e viúva num período de quatro anos. Ryan que não estava ali para defendê-la. Que nunca soube defender-se. Há poucos meses um novo surto de vampiros tipo mosquito se espalhava na cidade. Sugadores apenas. Nenhum poder relacionado aos verdadeiros vampiros. Têm sede de sangue, decompõem-se quando expostos ao sol, água benta ou alho, morrem através de estacas, podem ser aprisionados com sal grosso. No fundo, não passam de mosquitos. Basta o golpe ou o veneno certo. A maioria dos novos mosquitos era de homossexuais que buscavam aventuras durante a noite nos parques da cidade, principalmente no parque conhecido como Redenção. - Mas não encontram redenção aqui – pensou Patrícia, alerta, segurando com a mão firme uma estaca, e com a canhota o crucifixo em marfim que sempre a acompanhava. Eram os anos oitenta, afinal. A AIDS era vista como o câncer dos gays, justiça divina contra o pecado. Atacar homossexuais era uma ótima maneira dos vampiros agirem. Qualquer mancha que aparecesse na pele deles seria vista como sarcoma de Kaposi. A baixa da imunidade como efeito do vírus HIV. O álibi perfeito. Mesmo assim alguns aventureiros, talvez excitados pelo perigo, circulavam pela madrugada em busca de sexo, drogas, ou algum outro tipo de prazer. Patrícia acompanhava o ir e vir de homens pelos espaços entre a vegetação do parque há quase cinco horas, e já estava prestes a desistir quando avistou o primeiro movimento atípico nas redondezas. Já se acostumara a ver homens beijando homens, amando-se, afinal, estava em caçada no parque já há algum tempo. O não convencional na cena não estava na formação de um casal onde não havia mulher, mas no fato de um dos homens não deixar pegadas. - Alvo a vista – foi o primeiro pensamento consciente de Patrícia. O inconsciente tinha feito a mulher guardar a estaca às costas, levar a mão ao bolso dianteiro da calça, e coletar uma ampola contendo um líquido opaco. O plano era simples. Patrícia, vestindo roupas masculinas e um boné que ocultava as feições delicadas de seu rosto andaria desleixadamente na direção do casal numa diagonal que não indicava aproximação, mas coincidência. A dupla, esperava, não se preocuparia com o movimento. O ataque seria rápido e certeiro. Iniciaria o processo de esvaziamento da mente, por não saber quais os poderes psíquicos do vampiro, nem a classe do mesmo. Sabia apenas que não era do tipo mosquito. Vampiros mosquitos não flutuavam. Antes de esvaziar a mente, Patrícia pensou em Hector, seu filho de pouco mais de quinze anos, sozinho em casa, em treinamento. – Preciso ensiná-lo a técnica de esvaziamento, ou ele será um alvo fácil na mão de vampiros telepatas – pensou Patrícia, renovando as forças para o ataque. – Faço isso pelo bem estar do meu filho, que tem o sangue dos Szadkoski, e será um caçador melhor que o pai. Meu filho, minha herança. Ao concluir a oração, Patrícia estava preparada para o ataque. II. As batalhas mais importantes do mundo foram vencidas em poucos segundos. Batalhas longas são travadas entre perdedores e causam mais dor do que vitória. Patrícia não acreditava em guerras. Cada batalha era definitiva. Compreendia que, em sua profissão, perder uma batalha era o fim. Precisava ser rápida. Aproximou-se do casal exatamente como planejara. Nem o homem que estava sendo vampirizado, nem o vampiro que se alimentava pareceram percebê-la. Patrícia chegou a ter a sensação de uma mão branca tentando acessar os arquivos de seu cérebro, sem êxito. A sucessão de instantes seguintes foi como um borrão. A percepção de Patrícia agia em câmera lenta. Próxima do alvo arremessou o frasco contra a cabeça do vampiro que imediatamente começou a gritar. O grito sugeria alguma ave pré-histórica. O cheiro no ar, esse era certo. Alho. A mistura de água benta, álho e sal grosso agiu imediatamente sobre o couro cabeludo e a pele do vampiro. A criatura virou-se, caninos ensangüentados tão a mostra quanto a caixa craniana estaria em poucos segundos, mas pouco teve tempo para reagir. Enquanto o vampiro girava o corpo, Patrícia colhera junto às costas a estaca, e no momento em que estavam frente a frente, as últimas coisas que o vampiro pode ver foram o olhar e o sorriso triunfantes no rosto do algoz. Três segundos após a aproximação da caçadora, o corpo do vampiro já esmorecia com uma estaca firmemente cravada no peito. Mais um ponto para a família Szadkoski. Patrícia, que não pretendia ter de explicar-se, aproveitou os segundos de torpor induzido que ainda restavam sobre o rapaz vampirizado para tocá-lo com o crucifixo. - Não foi transformado. Outra alma salva pela Szadkoski Exterminadores Ltda. – Patrícia permitiu-se rir, direito que lhe foi roubado um segundo depois. III. A mão branca tornou a penetrar suas memórias. Tomou controle de seu corpo. Patrícia nada podia fazer, e lutava mentalmente contra as ações que agora desempenhava. Abaixou-se e colheu a estaca. O braço ergueu-se e, no interior de si, Patrícia pôs-se a gritar e debater, sem sucesso. Um arco foi descrito pelo braço da Patrícia que não mais lhe pertencia, atingindo em cheio o peito inocente do jovem rapaz entorpecido. - Bravo Patrícia. É este o nome, não é? Uma Szadkoski sem o sangue da linhagem. Interessante. – O corpo de Patrícia virou na direção da voz, e o que a mulher viu não foi tranqüilizante. Conhecia a lenda. Agora via a criatura. Hinterholz, o General. - Fico lisonjeado pelo reconhecimento – disse o vampiro, grasnando risos que Patrícia imaginou que ouviria mesmo depois da morte – mas isso não irá reduzir tua pena. Terei a mesma clemência que dedicaste a meu jovem pupilo. Adeus Patrícia. As presas de Hinterholz voaram em direção à jugular da mulher. O último pensamento de Patrícia foi enviado ao coração de Hector. – Cuide-se bem meu filho, seja forte. Hinterholz rasgou a garganta de Patrícia, absorvendo junto ao sangue as lembranças daquela que atrapalhara seus planos. Na manhã seguinte, junto aos corpos de um casal ainda não identificado, a polícia encontrou um pequeno bilhete com os seguintes dizeres. Eu aguardarei tua vingança, Hector, filho de Patrícia, herdeiro dos Szadkoski. A assinatura do bilhete dizia apenas o General. Anderson Santos
Alinhavando F(r)ios É da tua intuição o que mais lembro quando a noite cai e o vento assobia fins nas curvas do prédio Limitado, só percebo a chuva sobre os ombros Com varetas e a lona do velho guarda-chuva fiz uma pipa alinhavando f(r)ios a espera do amanhecer. Anderson Santos
O Contador de Estrelas - XXIV Apenas nos teus braços Pude ver estrelas Na noite fechada de chuvas de outono. Anderson Santos *-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*- caído em folhas-braços (secas?) molhado, vi estrelas cada uma, gotas duas uma minha outra tua daniel abs da cruz (chan)
Tempos Modernos I
Foi o rouxinol, não o despertador! Bah... O século XXI não é nada romântico.
Anderson Santos
*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
Tempos Modernos II
O tempo é sempre o melhor Band-Aid
Anderson Santos
*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
Tempos Modernos III
Toda intenção Tem uma interpretação De igual intensidade e sentido contrário
Anderson Santos
(Foto: Autor desconhecido)
Cada lágrima contém um oceano de Anderson Santos, in "Grilos"
01
... vão caindo, mansamente, pelo rosto, olhos vidrados por desgosto, imolamento, aflição que se deglute, permanência dum sofrimento, traçam rasgos por onde passam, acentuam rugas existentes, profundas, deixam marcas por ausentes, saudade duma partida na hora da despedida,
lágrimas como pérolas, brilhantes, redondas, belas, manifestação que se tem, oceano que se não contém,
sofrimento que alivia, dor que esquece, dique que rebenta por alegria incontida, pequenas coisas da vida, extravasar de sentimentos em alturas, em momentos,
cada lágrima, um universo, no âmago, no inverso, contradição quando surge, enormidade que ruge, simples apontamento, detalhe que se posta quando se abraça, se gosta, aflição que nos agasta, nos reduz, nos arrasta, induz alívio constante num mau pedaço de vida,
à chegada, à partida, alegria na tristeza, dor que se sente quando se recorda o ausente, cada lágrima um oceano de verdade, de engano, no ciúme, na paixão, no amor que se tem, não está na nossa mão tudo qu´ela contém!!!...
02
a emoção é com razão um motor e a decisão do mais inesperado
rastrear do decisivo processo do coração
onde se chora na Hora
vou coleccionar palavras sem nada dizer até conseguir chorar
como quem chove no molhado
procurando dos versos
procurando dos versos um poema que valha verter uma lágrima
ou coisa que a valha, pensando bem:
talvez um oceano!...
03
as lágrimas fugiram dos meus olhos se esparramaram feito deserto furioso abrasando minha pele de saudosa dor
fechei os olhos e dormi o sono dos justos
04
reflectem-se os deuses no brilho polido do convexo ventre do universo Dizem-se branco azul sonham ocre essas efémeras nuvens fêmeas de marear sustido
No vai e vem de cada lágrima ceva um mar no Olimpo enorme
Cabe na Palma toda a vetusta idade
Que se afoga na simples luzidia e transparente gota de verdade
Assim tem sido assim seja por toda a eternidade condenados
05
O seu olhar fala um idioma de silêncio e o eco por dentro dos músculos trai o som preso na língua nele o grito do desespero se acumula como rio de inverno na direcção do mar Pudesse o temor e medo e dor correr no alívio e sabor da lágrima ou o mar suspenso dos seus olhos inundar de som o seu sofrer e assim aplacar a descrença das madrugadas
Como pode um deus esboçar o azul do oceano de lágrimas contidas no silêncio?
06
Ah, ao azul marear [ficção ou verdade?] de uma ou outra lágrima ... guardadas num borrão de tinta, prensadas, para que ninguém se aperceba [cicatrizes] impedem que eu me debruce no tempo, e respire do mar alguma proximidade. talvez um ofertório de poesia aos deuses na praia em madrugada nova afogue a crença no vazio da casa talvez a inscrição, num mapa sem território, da lembrança de uma só gota do oceano "a maior lágrima"
07
... por paragens impensáveis, lonjuras que confundem, paroxismos inenarráveis no íntimo de cada um, crueldade que se não dimensiona, agiganta, impressiona, quando se conjunta, une, esgarro que não aninha, temor que desalinha,
forças maléficas que não suportas, tanto aguentas, emudeces perante, soltas torrentes incontáveis, formas lágrimas de pesar, oceanos de horizonte púrpura sob sol incandescente, temor vulgar de inocente, cáustico que se castiga, carrega assombração terrífica,
oh Deuses que estais ausentes, tão impotente te sentes, sofreres, falsas partidas, te quedaras num sentido, cerrado em pútrido casulo, vontade amorfa, nascituro indefinido, gota rosada sem face, rolando em parte incerta, criatura que não desperta,
seres que profanizam templos que derramam chamas ácridas que incendeiam, despautérios que te reduzem, lágrimas que soltas em silêncio, teus penares, desperfeitos, oceanos de águas fundas, longos sofreres, antes não foras parido, intenção... num desvario, cenas ocultas, desafio!!!...
08
Gota que me embebe. névoa, orvalho Eu mero grão de areia. Um traço apagado no mapa que foi pasto; eu chamas, tu oceano. Cicatrizes que não vejo mas sinto em cada som nascido e morrido em cinzas de palavras. O ar também chora: invisível e pó, nas pontas dos dedos...
09
tenho apenas estas quatro mãos, por sentinelas do devaneio. mas bastam pro temporal, sem que as palavras me arrastem.
10
para te ver feliz mergulho no oceano de cada lágrima tua e deixo-te a serena maré vaza trazendo a maré alta onde se condensam todos os oceanos cristalizados
11
luz e lágrima sempre escorre pelo rosto no papel que me toca [enorme a emoção do teorema] do proposto afago o alento adormeço na fome de mar satisfeito
12
nada falta ao sal da emoção pois não dá só tempero é puro alimento -
por uma lágrima correm rios com nascentes na alma
onde se encontram há (o) mar
13
Quando descasquei minha primeira cebola descobri: nem toda lágrima carrega um oceano.
14
que oceano verte os meus olhos se do sal peregrino resta a ilusão da viagem?
que mar, e que navio leva o vento se porto algum se oferece à aguada?
que rotas e que estrelas guiam o leme da desventura?
que mapas, cartas o tê traça o azimute?
que gajeiro vê para além da bruma?
lágrima gota na invenção da escrita.
15
de que matiz é a pena a matriz de uma lágrima? o que diz - pequena - não condiz com a grandeza do pesar.
16
noite sombria em que o meu rosto escurece induzem os contornos da lua uma azulada solidão que me atraca o corpo como barco em ancoragem as caravelas porém navegam unindo ao oceano cada lágrima minha
17
lágrimas cintilantes nascem dos olhos dos poetas [crianças - livres] como se oceanos acordassem cada peito uma brisa de palavras alvas e mansas se quedassem reflexivos imanentes
18
canto oceanos ignorados. a ultima lágrima caída no silêncio do adeus vazio em meu verso navegante por não poder chegar a ti.
19
caiu a lágrima no chão e faz-se assumir com personalidade. abre-se a boca debaixo da terra e rasga um coração de ferro.
num frenesim mágico vomita raios de luz, tranquila a lágrima começa a metamorfose.
sente-se o frio do silêncio. a dança do limbo é reinventada, dissolve-se ao longe nas margens num mar esventrado.
paralisado o ar, contém sorrisos doentios e palavras terríficas. entra o primeiro acto de loucura.
e nos poros descansa a poesia no oceano!
20
No oceano da lágrima navegam gritos sem porto de salvação
Acabam por dar à costa e a barbárie esconde-os na vala comum
No oceano da lágrima há milhares de botões que não puderam abrir tenras asas proibidas de voar
Dilacerada, a inocência estremece nas garras do gigante Golias e não há pedra que atinja a sua fronte
No oceano da lágrima há trepadeiras de poemas enleadas no silêncio da garganta
E há também sonhos que montam as ondas como se fossem potros e nos devolvem a primavera
No oceano da lágrima há cactos que resistem ao sal e crescem em direcção à luz
E sardinheiras em flor na varanda da memória
Um mundo que não cabe dentro das palavras.
21
Mas são elas caravelas prontas para o descobrimento. Afrontando os pensamentos nas rotas loucas do sentir. E no mastro sentinelas, espreitando a longa escuridão, arrastam o anseio pela chegada. Desse momento em que a Armada descarregue o oceano de palavras, que tarda em lágrimas de solidão.
Índice de autores:
01 – Manuel Xarepe 02 – Assim 03 – Osvaldo 04 – Luís Monteiro 05 – Bernardete Costa 06 – Sónia Regina 07 – Manuel Xarepe 08 – Carlos Luanda 09 – Sónia Regina 10 – Teresa Gonçalves 11 – Luís Monteiro 12 – Francisco Coimbra 13 – Denilson Neves 14 – José Félix 15 – Dalva Agne Lynch 16 – Vera Carvalho 17 – Luís Monteiro 18 – Teresa Gonçalves 19 – Lena Maltez 20 – Maria João 21 – Carlos Luanda
Ato nós: Sedução "Blefei sendo eu mesmo" Não a conquista febril mas a entrega branda Quando a máscara é igual ao rosto e o papel a encenar é a vida o palco tem raiz no inverno Alva é a natureza do medo Anderson Santos
Hai-queda
Fechar os olhos Conhecer Aldebarã Beijar-te
Anderson Santos
fingidor líria porto
quem destrinçar o meu verso achar segredos nas frinchas decerto vai perceber minha tristeza infinita disfarçada em ironia
eu rio do oceano e para ele caminho saltitante quase nada sou do tamanho de um grilo
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Grilos
Roça as asas, grilo, faz a música o acasalamento das palavras O canto único e o encanto úmido.
Um salto e dois, impulso faz o vôo e minha sorte é traçada no encontro que torna porto o ombro do teu pouso
Cada lágrima contém um oceano Quando a unidade de medida é sonho
Anderson Santos
Giz Por não ser necessária, a palavra se arrisca e risca em branco o não dito na entrelinha da memória. Só teme a escuridão àquele que sabe da luz. Anderson Santos Este poema foi selecionado entre os vencedores do Prêmio Literário Canteiros Cultural 2007
Para Anderson Santos
O sangue das palavras escorre pelos nervos da cidade revelando o poema que, escrito no brilho dos teus olhos, se esparramará na palma da tua mão, anunciando o amanhã que será sempre teu.
26.04.07 pastorelli
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Para Osvaldo Pastorelli
O amanhã é um passo roto em uma estrada esburacada. Pré-medito palavras por ruas vazias enquanto espero o hoje. É quando sangro que percebo: a vida é mais do que um receptáculo. Cubro com as mãos os olhos. A pior venda é a que nos permite ver.
27.04.07 Anderson Santos
Sobre órgãos essenciais
Não o coração, mas o estômago. Nele sentimos o frio do medo O vazio da angústia A dor da perda Não no coração... No estômago é que se cultivam lagartas Esperança de crisálidas Sonhos de borboletas Anderson Santos imagem by Merehalua
Um dia depois e já se torna velho o que era (ano) novo.
Aperta-me a cinta elástica à cintura
Os cabelos tintos o batom vermelho Chegará hoje aquele (adorável) velho grosseiro?
Nem o sacolejar do ônibus embala-me(mais)em sonhos.
(c) Hanna
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Voltas
Sou levado ao meu quarto-lar após sete dias em cativeiro.
Há um cheiro de tinta, de assepsia, de álcool e de metal que não cobre o cheiro de urina merda e velhice.
Mas há um cheiro e esse me conforta. Hanna fez minha cama e seu perfume ainda está nos lençóis.
Odeio seu turno do dia e dou voltas e voltas na cama afim de desarrumá-la.
Sou menino rodando em torno de rosas e minhas juntas hão de reclamar à noite.
Osni Rebello
"quenteúmido pouso de poesias"
Anderson Santos
Dos acúleos o mel volta às folhas
no chão as camarinhas despem-se,
a língua mole escalda.
Água e pântano ou corpo rebentam
no frontispício desta calda.
O mel volta verme.
Ana Mª Costa
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"Dos acúleos o mel volta às folhas" Ana Maria Costa
Transmuda mudo o grão metamorfose. São as verdades - luzes das sementes. O que era fel ferrão agora é prenhe. Silêncio e mel da boca escorrem quentes.
Não há espelho. Apenas o casulo abandonado, esquecido, nulo.
Anderson Santos
Verso náufrago
"Gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever" (Carlos Drummond de Andrade)
Plagio a mim enquanto espero o tempo - esse impostor que não sabe das horas - e me repito em versos de silêncio
Três horizontes adiante avisto o que há de ser um porto ou um conforto ou um rochedo, e aceito o oceano
Nenhuma chama acende o que me inspira e a pira acesa rouba o oxigênio leva consigo o fôlego e a coragem
Não haverá mergulho em águas profundas somente a pena a rabiscar barquinhos E um verso náufrago em forma de olhar.
Anderson Santos
 | MIDAS | Apr 4, '07 9:49 PM for everyone |
MIDAS
A memória é um Midas.
Transforma em agora
todo passado que toca.
Anderson Santos
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